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IBRAJUS - Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário

Revista On-line
Garibaldi Almeida Wedy
O entrevistado foi Promotor de Justiça, Juiz de Direito e Desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Aos 95 anos, esbanja saúde e vontade de viver. Garibaldi Almeida Wedy

IBRAJUS: Onde e quando o senhor nasceu? Onde estudou Direito? Quais foram as suas experiências na área jurídica antes de tornar-se Juiz de Direito?

Resposta: Garibaldi Almeida Wedy, filho de Alpheu Alves Wedy e Maria Almeida Wedy, nasci em 22 de Outubro de 1913, na então Vila de Soledade, Estado do Rio Grande do Sul.

Fiz vestibular no começo de 1935. Conclui o curso de Bacharel em Ciências Juridicas e Sociais no fim do ano de1939, na Faculdade de Direito da Universidade de Porto Alegre.

Fui primeiro suplente do Juízo Municipal da Comarca de Soledade, de 1936-1938. Solicitador (Estagiário de 1938-1940). Advogado de 1940-1941. Promotor Público (Promotor de Justiça) por concurso, de 22 de Abril 1941 a 29 de Maio de 1945.

IBRAJUS: Na Universidade o senhor deve ter convivido com pessoas que depois se tornaram nacionalmente conhecidas. Poderia citar três? Como eram como estudantes?

Resposta: Na turma de1939 formaram-se: João Belchior Marques Goulart, conhecido por Jango. Foi Presidente da República Federativa do Brasil. Hermilo Galant foi Juiz do Tribunal Federal de Recursos. Nicanor Kraemer da Luz foi Prefeito de Vacaria, ex- Deputado Estadual e ex- Secretário da Fazenda do Estado do Rio Grande do Sul. Francisco Solano Borges e Manuel Braga Gastal foram Presidentes da Assembléia Legislativa do Estado e, nessa qualidade, assumiram o Governo do Estado. Todos os citados foram bons estudantes.

IBRAJUS: Quando o senhor ingressou como Juiz de Direito? Foi por concurso? Era disputado? Como era a Justiça gaúcha naquela época? O volume de processos era grande?

Resposta: Ingressei no cargo de Juiz de Direito, por concurso, em 30 de Maio de 1945. Eram 9 (nove) vagas, mas foram aprovados somente 7 (sete) candidatos. Concorreram 25 (vinte e cinco) candidatos ao concurso. Neste concurso, eu fui o único promotor de justiça a concorrer. Em 29 de Dezembro de 1944, existiam "56 comarcas" , 92 termos, 92 municípios e 394 distritos" no estado do Rio Grande do Sul. Os Juizes Municipais exerciam função nos termos. Mas, havia alguns juizes municipais nas Sedes de Comarcas.

IBRAJUS: Como era a rotina de um Juiz de Direito no interior? Participava da vida da sociedade local?

Resposta: A rotina de um juiz de Direito era de dedicação ao trabalho forense. Eu sempre participei da vida social. Na cidade de Santa Maria, de terceira entrância, por exemplo, fui associado do Clube Caixeral, Sociedade Concórdia e Clube Comercial. Participava dos bailes promovidos pelos clubes Comercial e Caixeral. Na comarca de Soledade, minha terra natal, freqüentava os cafés da cidade e o Clube Comercial.


IBRAJUS: Como foi a sua carreira? Em que comarcas trabalhou? Quando foi promovido a Desembargador? A promoção era por antiguidade e merecimento como hoje?

Resposta: A minha carreira de magistrado foi normal. Trabalhei na comarca de Sobradinho, minha primeira comarca, onde também fui prefeito, no chamado Governo de Magistrados, para realizar as eleições de 2 de dezembro de 1945. Nesta eleição foi eleito o Marechal Eurico Gaspar Dutra para o Cargo de Presidente da República.

Trabalhei ainda nas Comarcas de Lajeado, Soledade, São Luiz Gonzaga, Santa Maria e Porto Alegre. Em de 5 de maio de 1969, fui promovido para o cargo de Desembargador. As promoções eram, como ainda são, por antiguidade e merecimento. Aposentei-me a pedido em 14 de Março de 1974.

IBRAJUS: Como era a administração da Justiça, do Foro, no início de sua carreira? Como o Juiz resolvia pequenos problemas, uma vez que o Tribunal de Justiça ficava distante e as comunicações eram precárias?

Resposta: A Administração da Justiça satisfazia a necessidade reclamada pela população. A administração do Foro contava com servidores competentes, no início da minha carreira.

Trabalhei em comarcas servidas por estradas de rodagem e também pela estrada de ferro da Viação Férrea do Rio Grande do Sul.

As instalações dos foros, no interior, eram precárias em muitas comarcas, em geral, os foros eram instalados em casas residenciais alugadas. Muitas dessas casas onde funcionava o foro eram grandes, permitindo até o funcionamento do Tribunal do Júri.

IBRAJUS: O senhor se recorda de alguma passagem pitoresca de seus tempos de juiz no interior?

Resposta: As passagens pitorescas foram muitas, menciono apenas esta:

- Um grande Juiz terminou assim a respeitável sentença: "Demorado por acúmulo de serviço. Tenho trabalhado muito, para pôr em dia o serviço da comarca. Tenho trabalhado para isso , 24 (vinte e quatro) horas por dia. E até mais!"

- Um outro Juiz que se gabava de nunca ter tido processo anulado, julgado pelo Tribunal do Júri, por ele presidido, contava: "Era um processo rumoroso, de larga repercussão. No dia do julgamento, o recinto do Tribunal do Júri estava cheio. O ruído era grande. Adverti, primeiro pedi silêncio. Depois expliquei que esvaziaria a sala se não houvesse silêncio para a continuação dos trabalhos. Afinal disse: - O primeiro que falar aí, eu mando pôr no olho da rua. Então o réu, mais que depressa disse: - Muito bem seu Juiz; muito bem."



IBRAJUS: O senhor tem um filho Desembargador e um neto Juiz. Essas opções foram totalmente livres? Houve algum tipo de orientação?

Resposta: O meu filho Delio Spalding de Almeida Wedy foi terceiro vice-presidente do Tribunal de Justiça e o meu neto Gabriel de Jesus Tedesco Wedy é Juiz Federal, com exercício atualmente na comarca de Porto Alegre.

A opção dos mencionados pela carreira foi totalmente livre. Não houve nos casos nenhum tipo de orientação. O Juiz Gabriel de Jesus Tedesco Wedy foi aprovado nos concursos para Juiz Estadual e para Juiz Federal. Entretanto, optou para o cargo de Juiz Federal.

IBRAJUS: Se um Juiz novo lhe pedisse três conselhos, o que o senhor responderia?

Resposta: Trabalhar com a Lei na mão. Se o Juiz tem a lei a seu favor, não adianta oposição alguma. Ao contrário, se o Juiz está fora da lei, não adianta o apoio até da população.

Evitar mesa de jogo, uso de bebida alcoólica e vida libertina, isto é, sem meia moral.

Dar a cada um o que é seu, ainda que enfrente até a impopularidade funcional.