Esqueci minha senha
Ir para o conteúdo - Atalho [T]

IBRAJUS - Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário

Revista On-line
Éderson Colombeli Apel
O entrevistado recolhe material reciclável em Curitiba. O objetivo da entrevista é saber como se dá o acesso à Justiça por um excluído social. Éderson Colombeli Apel

IBRAJUS: Onde o senhor nasceu? Como foi sua infância? Seus pais tinham emprego fixo? Estudou até que ano?

R. Nasci em São Miguel do Iguaçu, no oeste do Estado do Paraná. Não sei o ano, mas acho que estou com 28 anos de idade, meu aniversário é 16 de agosto. Fui adotado bem pequeno, por isso tenho um sobrenome italiano e alemão. Morava com os meus pais (adotivos) no campo, sendo meu pai agricultor, trabalhava na roça, e minha mãe em casa. Ela faleceu quando eu ainda era criança.

Minha infância eu passei em casa de aluguel, na zona rural de São Miguel do Iguaçu. Ajudava minha família com serviços gerais, muito na agricultura. Com 19 anos mudei-me sozinho para a cidade de Medianeira onde trabalhei como “diarista”, carpindo, por exemplo. Permaneci nesta cidade durante 1 (um) ano mais ou menos.

Na minha infância estudei em colégio rural até o 2º ano do ensino fundamental, Tive que deixar os estudos para trabalhar e ajudar a família.

Quando tinha a idade aproximada de 21 anos mudei-me para Curitiba, fazendo mais ou menos uns 8 anos que me encontro nesta capital. Atualmente moro na Favela Capanema, Curitiba, com a mulher, amigado, e mais dois filhos.

IBRAJUS: Em que trabalhou até tornar-se carrinheiro? Serviu o Exército?

R. Trabalhei no campo até os 19 anos quando me mudei para Medianeira, no Estado do Paraná. Lá eu trabalhava carpindo terrenos ou praticando atividades semelhantes, ganhando por empreitada e sem registro. Após certo tempo resolvi mudar-me para Curitiba, onde desde então permaneço. Minha profissão é catar papel, garrafas PET, latinhas de cerveja e outras coisas que se pode vender. Já fazem uns 8 anos. Não cheguei a servir o Exército.

IBRAJUS: Quando o senhor começou a viver de catar papel? Quanto tempo trabalha por dia? Quanto e de quem recebe o pagamento?

R. Comecei a trabalhar com esse serviço desde que cheguei à cidade de Curitiba. O carrinho que eu uso é alugado de um senhor que recolhe depois o material que eu apanho durante o dia. Trabalho normalmente das 06 horas e 30 minutos da manhã até as 10 horas da noite. Não tem dia de folga, trabalho de segunda a segunda. O meu pagamento é feito semanalmente por este senhor que aluga o carrinho, dando em média de R$ 100,00 (cem reais) por semana. O valor aproximado do material que eu recolho e vendo para ele é de R$ 0,18 o quilo de papel, de R$ 0,25 o quilo de plástico (garrafas PET) e R$ 3,50 o quilo de latinha de cerveja de alumínio. A minha mulher ajuda nas despesas, pois trabalha cuidando de duas crianças da vizinhança, levando e buscando da escola, e ganha R$ 100,00 (cem reais) por mês.

IBRAJUS: O senhor recolhe contribuição para o INSS? Como se vê no futuro? e na velhice?

R. Não sou registrado e não recolho nada para o Instituto. Não sei como será o futuro e não consigo imaginar como será quando eu ficar velho. Meu trabalho hoje já é sofrido e “se hoje já está difícil a vida, para frente não sei mesmo como vai ser, trabalho de dia para comer de noite”.

IBRAJUS: O senhor alguma vez recorreu à Justiça? Foi alguma vez a um Fórum? A um Juizado Especial? Justiça Federal? Justiça do Trabalho?

R. A única vez que fui na Justiça foi quando fiquei preso durante 1 mês, por uma denúncia por agressão a minha mulher. Eu não bati, foi somente uma discussão e depois que ela já havia denunciado tentou retirar a queixa, mas não conseguiu. Devido a esse acontecimento fiquei detido todo este tempo. Por causa disso lembro que tive que comparecer somente uma vez no juiz.

Não sei o que é Juizado Especial, Justiça Federal ou Justiça do Trabalho. Nunca ouvi falar. Não sei se tem diferença entre elas.

.

IBRAJUS: Quando o senhor tem um problema com um vizinho ou mesmo com quem compra o seu papel, como resolve? A quem reclama? Há chefes do crime que resolvem os conflitos?

R. Quando este tem problemas com o vizinho ou mesmo com meu patrão nada faço, costumo “deixar para lá”, não reclamando para ninguém uma solução. Houve uma vez que meu pagamento atrasou uma semana e eu passei necessidade, mas nada pude fazer a respeito, só esperar.

Sobre a existência de algum tipo de pessoa que possa resolver os conflitos, não entendo muito. Imagino que pode ter, mas não posso dizer que sim. Nunca me envolvi nesse tipo de problema. Onde moro todo mundo tem uma vida dura e ninguém quer saber de brigar com os outros.

IBRAJUS: O senhor, se tivesse que recorrer à Justiça, saberia como, onde e a quem procurar?

R. Caso eu precisasse da Justiça eu procuraria a Polícia. É a única saída que consigo pensar.

IBRAJUS: O senhor quer falar mais alguma coisa?

R. Sim, quero dizer que no meu trabalho caminho muitos quilômetros por dia e volto para casa muito tarde. Não tem tempo ruim ou bom para trabalhar porque é preciso sair de qualquer jeito para recolher o material. Minha saúde costuma ser complicada, agora eu preciso procurar um médico para ver minha coluna, pois está doendo.