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IBRAJUS - Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário

Revista On-line
Maria José Costa Delgado
Graduada em Serviço Social e Direito, esposa do Ministro José Augusto Delgado, do Superior Tribunal de Justiça.

IBRAJUS:  A senhora acompanhou seu marido desde o início de sua carreira. No entanto, a senhora também tem formação universitária. Quando e em que área se graduou?   Foi possível exercer a profissão, mesmo tendo que acompanhá-lo como juiz?

   
R. Foi na cidade de Mossoró, local de meu nascimento, que vislumbrei a chance de retomar os estudos após seis anos afastada, cuidando tão somente da nossa pequena família. Chegado na nova Comarca, Delgado, mais experiente e preparado, expande sua atuação com mais entusiasmo, favorecendo-lhe, nesse sentido, as condições de trabalho então disponíveis. Os dois filhos pequenos, Magnus e Liane, reiniciando atividades escolares,  me exigiam mais tempo e participação. Como estudar, meu  Deus? me perguntava entre uma pausa e outra. Situando os cursos universitários existentes optei pelo de Serviço Social, oferecido no turno da manhã, enquanto os meninos estudavam à tarde. Antes, obviamente, me inscrevi num curso preparatório. Estava afastada dos estudos por mais de seis anos. Faço agora um esforço para saber como fiz para dividir o tempo. O preparatório era intensivo, com provas, trabalhos e nesse meio tempo estudava à noite quando todos dormiam e  cumpri  integralmente o curso. Recordo o grande apoio de Delgado, ficando com as crianças no horário das aulas. Faço uma ressalva necessária a essa parte: quando se é jovem, toda sustentação de que precisa vem de dentro de você mesmo. Uma espécie de comando interior que o empurra e o faz acreditar que conseguirá. É como se  o mundo, o ar, as plantas, enfim, toda a natureza conspirando  a seu favor esteja ali com você interligado. É uma auto-destinação. Um desbravamento que o envolve com  Deus por perto, sempre lhe aprovando. Isso basta! 

Aprovada no vestibular, iniciei o desafio das primeiras aulas. Ia a pé para a Universidade Regional de Serviço Social tão feliz, tão alegre, que sentia até medo. Do que, exatamente não sei, mas relembro essa  sensação inicial que sentia. Me ausentava por duas vezes para amamentar minha pequena Liane, retornando à sala de aula mais tranquila por mais esse dever cumprido. Essas idas e vindas na verdade só me favoreceram, tornando-me mais disposta e com o peso no ponto ideal por todo o curso. Foi exatamente assim como aconteceu. E dei conta. Não foi tão fácil como falar aqui nesse momento. No entanto foram tantas descobertas com o novo aprendizado, que a cada ano me sentia bem mais segura.  E mais importante, quando anunciava ser universitária. Já não reclamava tanto a presença do marido com tantas tarefas acadêmicas a cumprir. Logo adormecendo as crianças, aproveitava  a calmaria para por a matéria em dia. Colocava os  pés numa bacia plástica com sal grosso e umas poucas pedras de gelo para controlar o sono. Uma colega me ensinara  e, sem outra melhor alternativa, sentia que dava bom resultado. Os professores, à época, comprometidos com a valorização do ensino, especialmente em razão do processo em tramitação no MEC, referente ao reconhecimento do curso, davam tudo de si  para destacar o curso entre os melhores da Região Nordeste. Nós, alunas, naturalmente éramos atingidas com as exigências impostas pela metodologia então,  aplicada.  Em algumas raras horas da boa solidão pegava meu violão, relembrando músicas antigas com letras de vida e de amor ensinadas por meu pai, maestro não só de Banda de Música Municipal, como também tocador de violão e clarineta. Assimilei dele ser descomplicada, surpreendentemente paciente, dizem alguns de meus poucos amigos e a  manter um  bom humor. Assim, finalmente, após quatro anos de boa luta, numa noite de gala, vestida com um vestido longo branco confeccionado, dancei a valsa de formatura com Delgado. Considero essa a foto que dividiu minha vida no "antes e depois". O sentido dos movimentados dias de faculdade à  sua conclusão me acompanha até os dias de hoje. Eu, aos 26 anos, mãe e esposa de um magistrado  já de elevado valor jurídico, galgando o maior grau de estudo que me permitia naquele momento perceber. Era demais para mim ser testemunha de mim mesma numa noite tão significativa também para os meus amados familiares. Não posso esquecer aquele, um período sobrecarregado, todavia muito bem vivido para ser esquecido ou lamentado. 

Sei  que sou compreendida por aqueles que, como eu, pensam e se  lançam para chegar aonde querem. E ainda que em momentos se chore, se magoe ou se desanime, que seja por pouco, pois nada disso importará se dentro de você construído está o esquema da superação onde a   desistência jamais terá  força para adentrar.

Mistério nisso tudo não há. Boa luta e o tempo bem aproveitado, sim!  

 

 
IBRAJUS:   Como foi a sua vida como esposa de Juiz de Direito no Rio Grande do Norte? Em que comarcas residiram? Quando? Como era a sua rotina nas comarcas de interior?


R. Moramos em três cidades do Estado do Rio Grande Norte, conforme determinação obrigatória para a permanência  do magistrado nas respectivas Comarcas. Na sequência: São Paulo do Potengí, Areia Branca e Mossoró. As Comarcas se diferenciavam pelo tamanho, população, distância e condições de moradia. No caso,  para Delgado, onde uma casa comum fazia as vezes de Foro, havia precariedade funcional e falta de segurança. Ele, de porte franzino, lembrando mais um menino, resolveu deixar crescer um pequeno bigode para impressionar os moradores e os jurisdicionados. Eu achei muito estranho, mas nada comentei. Afinal, com um bebê de colo para cuidar, tudo me parecia perfeito. Esse nosso primeiro filho, Magnus, foi privilegiado, recebendo os cuidados que naquela fase acreditava só eu sabia e podia fazer. Acomodada numa pequena casa com nascente para o sol, sem água encanada, sem móveis e muito calor, eu era simplesmente feliz. Os dias assim  passados se alongavam sem que nos déssemos conta das dificuldades naturais que existiam. Ao final da tarde as pessoas ficavam sentadas no patamar da Igreja que, do alto, se postava dividindo as duas principais ruas da cidade. O Monsenhor Expedito, com quem Delgado mantinha ocasionais contatos, representava, segundo ele me dizia,  uma inteligência aguçada e sensível como único líder sacerdotal do lugar. Era muito repetido e querido por todos. Ocupada com meus afazeres de esposa, mãe e dona de casa, confesso que tal  rotina me fazia sentir saudades dos meus familiares e de Natal. Mas a distância se encurtava nos finais de semana quando íamos ver nossos pais e irmãos. Implorava para ir ver o mar, na antiga Praia do Meio, hoje Praia dos Artistas. As boas lembranças ali vividas, proporcionais ao tempo ali passado, referem-se mais à experiência inicial de Delgado como Juiz. Uma pequena cidade de gente pacata e hospitaleira acolhendo o novo Juiz com muita simpatia e  orgulho  Todos querendo conhecê-lo e saber onde morava. Algumas pessoas, moradores mais antigos,  iam diretamente a nossa casa para um café, num total clima de cordialidade Também sendo uma curiosidade natural saber sobre a sua família e se iriam residir na cidade. Recordo do Tabelião, um senhor de tamanha estatura que, quando o acompanhava ao Foro, mais parecia a figura de um pai levando o filho adolescente à escola. Assisti a alguns raros momentos de conversa entre os dois, me impressionando a autoridade imposta pelo recém chegado  juiz no desejo de aprimoramento de modernos  métodos dos trabalhos cartoriais, agora supervisionados e sob orientação compartilhada. Foi um período tranquilo, mas de especial acréscimo ao seu primeiro exercício na magistratura. Eu só sabia que tinha que estar ali presente. Preparar e cuidar da casa, da roupa e da alimentação, era esse naquele momento o meu dever. O tempo corria para mim como uma aventura inocente, sem outras preocupações. Aquele pequeno grupo familiar me satisfazia e pronto. Recordo, também, que visitara algumas vezes a maternidade local na intenção de fazer alguma coisa voluntariamente. Mas o bebê, não tinha com quem deixar. Me aquietei e esperei, então como única opção, deixando o tempo passar.

Em pouco mais de dois anos Delgado recebe sua primeira promoção para a cidade de Areia Branca. Onze horas de viagem, das quais cinco de estrada caprichada por densa poeira nos acompanhando até o final. O carro, um Volkswagen  verde, ainda bem a cor da esperança, nos conduzia sob a direção de Delgado num aperto tal que ora os pés quando "dormentes" causavam grande desconforto. Grávida de cinco meses (pelo visto já não nos rondava tanto aquela solidão), demonstrei boa resistência nos embalos e sacolejos do fusquinha que, sem ar condicionado, me forçava abrir os vidros pelo sufoco do calor, só me fazendo mesmo engolir mais  poeira. Santo Deus, quanto tempo para chegar? Estávamos juntos e isso o que importava. Meus pais logo atrás no caminhão da mudança,  nos  dariam apoio na chegada. Em Areia Branca tinha o mar. Que boa notícia de ouvir! Lá tinha (tem) uma bela praia "Upanema". O mar raso, comprido e sem ondas era ideal para se tomar banho sem susto. Nossa segunda filha, Liane, nasceria  três meses depois em Natal. E em menos de um mês retornávamos fazendo aquele mesmo percurso, todos desta feita já  imunizados pela travessia anterior, só a minha filha recém-nascida protegida pelo  Anjos das estradas, com toda certeza. Notava, meu marido mais maduro, mais ciente de sua missão. O trabalho intenso na Comarca anterior o inspirara para um desempenho jurisdicional mais condizente com a realidade de que dispunha. Naquela época o Juiz só contava mesmo com a sorte de uma  boa saúde, da família por perto, do destemor do trabalho e acima de tudo da proteção constante do querido Deus.Tivemos tudo isso. Fomos agraciados. Ao contrário da primeira Comarca, esta tinha mais movimentação. O cais das docas por onde trafegavam inúmeras embarcações era uma festa de prosa e de novidades nas manhãs e finais de tardes. Recordo-me passeando com as duas crianças à beira do rio,  que ficava bem próximo de onde morávamos. Um imenso rio adentrando na cidade, formando um cenário da natureza que era mais um encanto aos meus dias.

O Cartório em frente à casa permitia a Delgado vir almoçar regularmente, trazendo sempre processos para analisar. Por sua vez a nova morada mais lembrava uma pousada, pelos tantos cômodos dispostos e desocupados. Quando por motivo de trabalho ele viajava a Natal, trancava de chaves os tantos compartimentos por onde tinha acesso até a cozinha durante a noite. Adianto, nesse tempo ainda não havia  luz elétrica.

Sem água, desta feita sem luz, utilizávamos o indispensável candeeiro. Até uma noite em que toda a população despertada  na madrugada com fogos de artifícios e muita gritaria, vai às ruas para comemorar a chegada da água potável, jorrando forte dos poços artesianos. O sonho maior dos moradores por tantos anos e do qual também, efusivamente, participamos. A luz veio bem depois. Enquanto isso nossa geladeira, a gás, era tratada como a rainha do lar. E era exatamente o que ela era mesmo. O seu  precioso combustível, também sagrado, jamais podendo faltar.

Um fato interessante é que certo dia fui me oferecer para fazer uma palestra no dia das mães no SESI local. Fui aceita. Em casa quase perco o juízo, pois não sabia que assunto falar. Dispunha de poucos livros, alguns romances de uma autora chamada M. Delly, que relera por demais, nada tinha sobre dia das mães. Chorei de aflição. À noite, em claro, implorei à Virgem Maria que me desse uma luz. Delgado me mandando criar juízo e ao mesmo tempo me estimulando, já que tinha tido essa invenção. Que boa maluquice.

Chegando o dia,  hora marcada,  tudo conforme acertado, fui adentrando sala a dentro e me deparando com um salão repleto de convidados. A esposa do Juiz vai falar no SESI, soube depois a notícia que espalharam pela cidade.

Senti náusea e tremor nas pernas. Após minha apresentação como "a esposa do juiz  vai falar" pela diretora da casa, observei bem à minha frente uma mulher jovem segurando um bebezinho ao colo. Não tive dúvida, o tema estava ali definido: "Quais os cuidados que uma mãe deve ter com os filhos pequenos". Era tudo o que eu sabia falar. E deu certo. Foi comovente ao final quando, procurada por muitas delas, recebia abraços e agradecimentos. Nunca mais me ofereci, mas  procurada outras vezes me preparava melhor,  planejando com esquemas simples o roteiro do assunto a ser decorrido.  Um tempo também feliz. Com pouco dinheiro, pois  continuava sem trabalhar, fora de casa é claro, economizava em tudo que o podia para poder viajar de carro para Natal. Esse, o meu completo sonho, naqueles bons tempos. Chegando a Natal sempre à noitinha, ao nos aproximarmos das luzes da cidade, sentia o seu cheiro, uma  mistura de mato verde, de maresia e de capim cidreira que só ela tem. Areia Branca foi outro marco em minha vida. A convivência com algumas pessoas especiais me renovou em valores de amizade e de solidariedade. Impossível não registrar o senhor José Brasil, um dos tabeliães e Maria José, funcionária de Cartório. De ambos recebi gentilezas jamais esquecidas. 

                 

IBRAJUS:   Os vencimentos de um Juiz de Direito à época eram bons?  Permitia que se tivesse uma vida  tranquila?


R Os vencimentos de magistrado não davam para se gastar à toa. Delgado, originário do comércio, tudo anotava, nada acrescia, só deduzia. Ajudava também, a motivação para a economia, sem rádio, televisão, telefone, supermercado, com nada com que se gastar, nos contentava saber estarmos juntos e com saúde. Um  único cinema na cidade, apenas uma vez assistimos a um filme. Acreditem, pois, éramos assim mesmo felizes. Pudera! As tentações externas que hoje nos cercam e atormentam não existiam, como  compras a prazo, cartão de crédito, facilidades de parcelamento, bancos, caixas eletrônicos, nada, nada. Foi daí que meu marido tornou-se um gênio "sem lâmpada" para o milagroso fenômeno da  economia espontânea. Fundamento não faltava,  medida certa também. A vida tranquila ficava por conta de alguns dias de domingos quando, sob sua tutela, arriscava um a dois copos de vinho "Capelinha". Eu, que jamais bebera, me expunha àquela prova, até que uma dor de cabeça cruciante quase me tira da realidade. Os meninos, esses sim, a parte principal daquela vida tranquila onde as economias para com eles em nada funcionavam, inexistindo limites para a garantia de seu bem estar, segurança e conforto.



IBRAJUS:   E os filhos, nasceram quando a senhora vivia no interior? Foram criados na capital? Um deles é Juiz Federal, como ele fez  a escolha? Houve influência do pai?


R. Os  três filhos, Magnus, Liane e Ângelo, por escala, nasceram em Natal. Foram chegando à medida que também nos organizávamos para recebê-los. Certo dia Magnus me falou: mamãe, vou fazer concurso para juiz federal. Fiquei, por dias,  muito pensativa. Pedia sinceramente a Deus que o auxiliasse nessa decisão. Delgado nunca o influenciou, pelo menos, expressamente, posso assegurar. Sabia que admirava o pai. Por sua vez também que reclamava de sua ausência nas ocasiões em que, por força do trabalho, não comparecia aos compromissos dos pais no Colégio Marista onde todos estudaram. É o que sempre continuo a dizer: nada pode ser tão difícil que não tenha solução adequada no momento oportuno, ou seja, no momento próprio. Mas, também, nada  acontece por acaso nessa nossa existência que não seja por um propósito predestinado, que jamais poderemos humanamente alcançar. São fatos reais que nos acontecem, que nos testam, que nos alertam, por vezes nos causando forte dor ou excessiva alegria, mas necessários a nossa melhoria como pessoa em permanente crescimento emocional e como aprendiz se soubermos com absoluta humildade interpretar os resultados que de tudo advêm ou para nos fortalecer ou simplesmente para nos ensinar. Não creio, jamais, para nos destruir. Sinto bom orgulho dos meus três filhos. Hoje adultos, têm vida própria. Me deram cinco netos saudáveis, tão queridos. Foi uma condição surpreendente, por mim trabalhada, vê-los então adultos, tornando-se outras pessoas, por já saberem das opções e decisões que querem ter com suas vidas. Não há mais lugar para  incompreensões, críticas e cobranças. Somos todos crescidos Aquele tempo passado de dengos, fraldas e mamadeiras não poderia perdurar. Como toda etapa cíclica da vida, teve o seu limite, iniciando-se outros.

  
IBRAJUS: O seu marido era Juiz de Direito em Natal quando resolveu fazer concurso para Juiz Federal. Como a senhora recebeu a notícia? Não foi uma nova reviravolta em sua vida?


R. Sim. Foi mais um desafio a ser enfrentado em compartilhado. Só que dessa vez não houve tanta solidão. Houve foi abandono mesmo. Ele isolou-se num dos quartos de nossa casa quando se havia decidido iniciar uma pequena reforma em razão da chegada do nosso terceiro filho, Ângelo. Livros, apostilas, rascunhos, máquina datilográfica, material de construção,  pedreiros entrando e saindo, tudo  compartilhava ou conspirava com essa nova investida de seus estudos. Uma fase realmente imposta por limites de  espaço físico e  excesso de barulho durante todo o dia. Só à noite, encerrados os trabalhos,  permitia-se melhor clima para sua concentração. Eu, grávida de seis meses e já trabalhando no SESI como Assistente Social, me perguntava: até onde, meu Deus, vai a minha resistência?  E foi, quero dizer, eu fui me levando até chegar o resultado de sua aprovação. E mais uma  primeira colocação no concurso, que me fez redobrar na crença que Deus o amparara sem trégua. Foi justo, mais que justo, digno, encantador,  vê-lo subir no topo do saber jurídico com seus próprios esquemas e força de vontade imbatível. Uma solidão para ambos, abençoada e de retorno garantido. Ouçam os que estão agora na  trilha desse caminho. Ele existe, ele tem volta. E mais, chegado o dia de sua posse em Brasília ficava por conta de agradecer, agradecer e só agradecer. Nada mais. Voltar um pouco ao passado me fez recordar um fato que até hoje reflito, poderia ter pontuado estrategicamente sua ida mais cedo para o STJ. A primeira colocação favorecia ao candidato escolher o Estado onde queria iniciar sua magistratura federal. Delgado optou por Natal, lugar sempre querido por nós para viver e criar nossos filhos A família, em geral, teve também muito peso nessa sua decisão. A reflexão a seguir é muito pessoal. Tendo sido sua atuação inicial em Brasília, a proximidade e o conviver com os demais membros da magistratura local não o possibilitaria a partilhar das oportunidades ao pleito de ministro? Mesmo como Juiz Federal em Natal não foi então convocado para o STJ por mais de três anos consecutivos para substituir Ministros daquela Corte? E se mais de perto, essas chances não poderiam ter tido posições definitivas? São conjecturas que faço apenas. E ao ensejo, fazendo jus às palavras que sua mãe D. Neusa tão frequentemente usava, inclusive com ele, registro: "Quem não é visto não é lembrado"!

Reitero, contudo, o já afirmado acima: por toda nossa vida e assim por todo sempre só nos cabe agradecer e agradecer.

     

IBRAJUS:   A senhora foi morar no Recife quando ele foi promovido ao TRF da 5ª Regição. Como foi essa fase da sua vida?


R. Foi  uma realidade de mais uma experiência de vida, contudo acentuadamente dividida em meus sentimentos. Sair de Natal, ficar distante de meus dois filhos Magnus e Liane, ela agora grávida da primeira filha. Não poder acompanhar o crescimento de minha neta Beatriz, já  nos seus primeiros anos me fez chorar por muito meses. Era uma saudade doída, porque doía mesmo no peito. Não o acompanhei, no seu primeiro ano no TRF. Já integrava a Universidade Federal procurando, naquela ocasião, quando antes coordenadora da  "Coordenação dos Campi Avançados",  me enquadrar na atividade docente, exercendo inicialmente a supervisão de estágio e orientação de monografia de alunos concluintes. Não foi nada saudável para mim essa mudança. Feliz por ele, mas apreensiva com minhas novas funções no Departamento de Serviço Social, me deixava levar por um sentimento pesaroso de que mais uma mudança, sempre para mais longe, iria me fraquejar. Não dava mais. Um ano após recebo o convite de Dr. Ridalvo Costa, então presidente  daquela  Casa, para ocupar o cargo de Diretora da Divisão de Serviço Social. Não foi igualmente salutar afastar-me do Departamento ao qual estava vinculada. Com ofício do Reitor me colocando à disposição do TRF assumi o cargo, mas não me mudando de vez para aquela cidade. Uma rotina exaustiva tomou conta de nossos dias. Os dois trabalhando em Recife e nos fins de semana em Natal. De carro, sempre às noites de sexta-feira, deixávamos Recife, hoje refletindo o quanto nos expusemos na estrada movimentada. E foi assim que fui criando laços afetivos e funcionais com o que sempre me dispus a fazer e que sempre me fascinou, o de trabalhar com gente, com  pessoas,  fonte inesgotável de saber e de descoberta como Deus quis dotar todo ser humano.

Uma fase produtiva, marcada pela rica experiência profissional e pelas amizades sólidas construídas. Deixei fiéis amigos no TRF da 5ª Região, nascidos da afinidade e do respeito de uma equipe feliz que me acompanhou por todos os seis anos ali passados. Também para deixar tudo isso e ir para Brasília foi um Deus nos acuda. Só um ano após a sua posse no Superior Tribunal de Justiça é que me decido, inicialmente à força, confesso, ir para a Capital Federal.

   

IBRAJUS:   O seu marido disputou o STJ e levou longo tempo para ser nomeado. Qual foi a sua participação nisso? Estimulava-o ou achava aquilo um sofrimento? Quanto tempo durou a definição?

 

R. O Juiz para ser ministro passa por provações. Tem que estar preparado física e emocionalmente. Se é esse o seu sonho profissional tem que ser também o de sua vida,  face à disposição que tem de ter e atitude para, de corpo e alma, entrar nesse processo. Não considero um sofrimento, mas sim um exercício de equilíbrio. Isso sim, pois conviver com a incerteza e a ansiedade, incessantes, desgasta e  potencializa uma luta que é invisível. Foram mais de três meses, creio, para que saísse sua nomeação. Não entendia, como hoje entendo, as etapas a serem cumpridas. A cada dia mais demorada a decisão, mais ele silenciava, diuturna e noturnamente, dedicando-se aos processos que se avolumavam em nosso  apartamento. Quando motivado a viajar para Brasília, eu sabia ser motivo para uma peregrinação junto a pessoas influentes e de acesso ao Presidente da República. Não só ele, como os demais também incluídos na lista. Eu me perguntava como um Juiz de carreira, que renuncia a quase tudo para o seu melhor exercício profissional, pode passar por isso, meu Deus? Sou devota de José, o Pai de Jesus.Trago meu nome por ter minha mãe entregue a ele minha vida. E foi meu grande companheiro nessa jornada. Logo ele,  homem simples e de paciente profissão, me acalmou em muitos momentos em que não sabia o que fazer. Graças a Deus que nunca me deparei com o Presidente João Batista Figueiredo nem ele comigo. Imagine do que poderia ser capaz de lhe falar, de explicar, de pedir, não sei. Já se passou tanto tempo que na memória só guardei o que ficou de bom, que foi o momento de saber sobre sua nomeação. Assim, não tive tanta participação. Tive muitas lições e aqui destaco como exemplo  a de nunca se pode desistir do que se quer verdadeiramente. Do preço que se paga, por um sonho fora de seu controle, vem complementar a primeira. Tive uma calma alegria quando recebi às 22.00h, na cozinha de nossa residência em Recife, a notícia de sua nomeação. Mais calma ainda o chamei e comuniquei o que acabara de ouvir. Ele, duvidoso, de imediato fez contato com a pessoa com quem falara há pouco, havia anotado o número. Tudo confirmado. Não deu para se vibrar naquele momento. A incerteza ainda rondava e, por prudência, melhor esperar. Todos estávamos cansados, nos prevenindo, ainda os mais experientes, que imprevistos poderiam ocorrer. Ainda assim, repito, não encarava esse processo um sofrimento, até porque para entrar nele o candidato há que estar  apto e bem consciente dos embates ao mesmo inerentes . Era sim, uma luta desigual, embora a Carta Magna do país expresse claramente que é assim que deva ser.Todavia, tenho visto tantas mudanças acontecerem  no nosso querido país, transformações dantes impensáveis de aprovação, serem  incorporadas ao ordenamento jurídico brasileiro por força do poder e da manifestação expressiva de seu povo. Estamos todos a testemunhar essas evoluções sociais sem muito tempo para duvidar do advento de outras que virão, fruto dos fenômenos normais da própria sociedade contemporânea. Assim também podemos pensar,  quem não poderá garantir um dia, não sei se estarei ainda por aqui para presenciar, a adoção de critérios para nomeação  de ministro  para os tribunais superiores do Poder Judiciário, definidos apenas em dois, desde que comprovados: o domínio jurídico e a produtividade. O candidato, ele próprio, a definir-se apto ao pleito e a escolha final efetuada  por uma comissão especial composta de seus próprios superiores.

  

IBRAJUS:   Em que ano a senhora se mudou para Brasília, face à nomeação dele para o STJ?  Como foi esta nova adaptação?


R. O ano, foi o que Delgado ingressou no Superior Tribunal de Justiça. Sou muito ruim para guardar datas, mas sou ligada a fatos interessantes. Minha adaptação foi previsível, de poucas formalidades. Por exemplo, na tarde em que finalmente desembarquei no aeroporto de Brasília, me surpreendi com o olhar de espanto de meu marido. Quis voltar, mas não tinha como. O salão de desembarque completamente lotado dificultava, ainda mais, minha passagem com grandes e variados volumes. Como também logo constatei não ter como carregar, sozinha, toda aquela  bagagem  num carrinho tão pequeno. Acresça-se a isso, os meus dois violões protegidos com grandes capas pretas. Notei, relembro, alguns olhares curiosos sobre mim Afinal, não era eu que chegava para morar naquela cidade? Não podia, pois, ser diferente. Recordei sobre o que me alertara com palavras incisivas: minha filha, como habitualmente me chama, em Brasília os costumes são diferentes. As pessoas são mais formais. E você, deve falar mais baixo, sorrir mais baixo, cumprimentar mais sobriamente e vai e vai... De imediato pensei, vou morrer. Com mais essa mudança, dessa vez não vou escapar. Logo, adiante, vi Delgado acompanhado de dois cidadãos vestidos a caráter, com muito elegância, que me aguardavam. Pensei comigo, são deputados. É assim que se vestem. Tentei  organizar aquele amontoado de peças em vão. O salão de embarque pouco a pouco se esvaziando me forçava a também deixá-lo. O jeito era pedir ajuda e decidida me dirigi  aos três. Abracei meu marido com saudade. Me apresentei com um solene "muito prazer senhor deputado", aos dois. E pronto estava feito. Minha sorte é que, por seguir rigorosamente a  recomendação de "falar baixinho", tal cumprimento ocorreu quase imperceptível, penso eu até hoje. Já no carro, Delgado, meneando a cabeça em completa desaprovação, embora contendo um discreto sorriso,  me diz: minha filha, não são deputados, são os seguranças do Tribunal.  Rimos a valer. Já em casa, atribuí a ele a culpa total pelo excesso cometido.

Daí em diante foi uma trajetória sem maiores atropelos. Passei a ver na cidade os pontos que mais me atraíam: o espaço e a amplidão para caminhadas tranquilas, o clima, sempre ameno à noite. Estranhava a solidão das "ruas", "avenidas". Apreciava a visão da  vasta  vegetação, a floração colorida dos  ipês, as cores fortes das buganvílias, das acácias. Realmente, um cenário suave para quem, como eu, adora apreciar a natureza. E assim fui buscando afinidades com o   lugar. Recordo uma das caminhadas em que me perdi, só me achando quase às 17;00h quando encontrei o endereço.

Posso resumir alguns fatos que mais me ajudaram nessa adaptação: por exemplo, morar logo no início numa pequena casa onde os aviões, ao aterrissarem,  praticamente passavam na extremidade final de seu quintal. Até o barulho, ensudercedor, me  fascinava. Passei muitos momentos assistindo a isso, até nos mudarmos para uma outra residência maior, anexa a uma quadra comercial. Procurava conhecer pessoas, os donos dos estabelecimentos, passando também a ser atrativa essa parte, resultando sempre em boas conversas informativas com aqueles mais antigos fixados daquela quadra. Importante, também,  nesse ínterim, o convite  do Ministro Ilmar Galvão para assumir o cargo de Secretária de Recursos Humanos do Tribunal Superior Eleitoral, então o seu  Presidente, que eu não conhecia. Já aposentada pela Universidade Federal do meu Estado, retornava ao  serviço público ciente da responsabilidade dos novos encargos assumidos. E por que resolvi aceitar? Não se pode questionar, o trabalho cura tudo, tudo mesmo. Foram quatro anos de aprendizado e de dedicação. Dei de mim tudo que podia, pois ser esposa de ministro, ocupando um cargo comissionado, tem o estigma de que  não haja comprometimento ou mesmo competência para assumí-lo. No começo foi desafiante, mas o suficiente para que pudesse comprovar a minha atuação profissional com zelo, produtividade e responsabilidade. Ao final de quatro anos, integrando, a convite,  a presidência dos Ministros  Néri da Silveira e  Maurício Correia, encerrava minha missão, entregando o cargo no qual tanto me enriquecera, agradecendo a Deus pela convivência com pessoas cultas, de renome jurídico nacional e que me acolheram com tanto respeito e dignidade.

"Parada" em casa mais uma vez fui me inquietando. Delgado, agora  passando maior tempo no Tribunal, trazia, ainda,  pilhas de processos para analisar em casa. Fui, com o tempo, tendo respeito  respeito maior por aqueles documentos. Eram histórias de dor e de angústia humanas  para serem solucionados. E aquele homem tantas vezes circunspecto ao meu lado era o grande mentor para lhe dar a solução mais justa. Foi quando me interessei a saber, tecnicamente, o que vinha a ser um " recurso" e, acredite quem me ouve, guardei na mente o sentido de último socorro, da última esperança, um sofrimento finalmente para ser resolvido. Eu cheguei a me sentir assim, em fase de recurso, mas só para Deus que me conhecia. Voltava a conviver com solidão. Mais adaptada e com outro olhar sobre toda essa mudança de vida, pensava: tenho que fazer alguma coisa por mim. Não há perspectiva de voltar a Natal E fiz, assumindo  um trabalho voluntário na cidade do Paranoá, com um pequeno grupo de idosos, onze ao todo, a convite de Dra. Cleomar Dantas, esposa do ministro José Dantas, também do nosso Estado. Uma mulher fantástica, com sólida  formação religiosa, terapeuta por natureza e incansável para fazer o bem. Resumindo, hoje com 135 idosos, aos dez anos de sua existência o grupo cresceu, tomou vulto e agregou à minha vida o valor de uma verdadeira família e só agradeço a Deus, é o que faço por ter me concedido essa convivência que me completa ao ponto de me fazer mais feliz por continuar nessa querida cidade.

Mas essa adaptação não parou por aí. Me dei o direito de revolucionar  mais essa permanência. Em 24 de março de 2010, às 20;00 horas, concretizou-se mais um fato marcante em minha vida: integrante da turma de Direito 2010,  Universidade EURO-AMERICANA- UNIEURO, recebia meu segundo diploma universitário, de Direito, numa solenidade de colação de grau que contou com outra  presença mais marcante ainda, por  escolha  da própria turma, do paraninfo e orador principal, o meu marido José Delgado.

Chorei naquele momento por minhas próprias razões. E mais ainda,  por mais uma vez, testemunha de mim mesma, me ouvir prestar um novo e solene juramento a favor da honra, do bem, da paz e da justiça. Iniciado  o curso de Direito aos sessenta e três anos, já em plena terceira idade, concluindo aos sessenta e oito, me programei, premeditadamente,  para o baile de formatura. Rodeada dos inesquecíveis colegas, vestida a rigor num  longo vestido vermelho intenso, pois era assim mesmo como me sentia, (confecção pronta, comparando-se ao primeiro), dancei uma segunda  valsa de conclusão de curso superior e com o mesmo Delgado. Quanto perdão nessa nossa caminhada! Os seus cabelos já grisalhos me faziam retornar a nossa  imagem de anos atrás, ele com 32 e eu aos 28 anos, na cidade em  Mossoró, sem nunca imaginar, na inocência daquele momento, o quanto de estrada se teria a percorrer, ambos com propósitos de vida diferentes, mas um  rumo só a ser seguido. Ressalto que  o visual chocante escolhido me integrou ainda mais  à querida turma, da qual fui representante, sem tanto por merecer,  por todo o período do curso. Como se pode deduzir, não me vejo condicionada a parar nem por aqui nem para o futuro. No momento preparo-me com afinco para o Exame da Ordem aqui em Brasília. No curso preparatório que frequento escuto muitas expressões de temor  e de tensões. Escuto e respeito, porque os jovens devem ter suas íntimas razões, mas fico mais por conta do meu preparo. Tenho medo, sim. É um teste fechado, de natureza legalista  em todos os sentidos. É um exame necessário, sou reconhecida. As regras estão definidas. Os critérios, idem. As provas, os únicos instrumentos para superá-lo. O que fazer? Só o estudo, compreensivamente assimilado de seu possível conteúdo, porque assusta o todo dele, lhe permitirá  sair vencedor de mais esse desafio. Eu já me decidi. Vou tentando, sem jamais desistir.

         

IBRAJUS:  A senhora viveu toda uma vida como esposa de magistrado. Apesar de os costumes terem mudado, que conselho a senhora daria a uma jovem esposa de um juiz?

 

Eu me arriscaria  a dizer que essa jovem esposa já começou bem, fazendo essa escolha, com sua escolha, mas atenção, tem que se cuidar para melhor cuidar dele.